Relato da primeira ascensão ao Nevado Extremo Huanacuni Norte (5400 m), montanha virgem localizada na Cordilheira Apolobamba, Andes bolivianos

Autores: Julieta Ferreri e Marcelo Delvaux


O Nevado Huanacuni (5798 m) é a quarta montanha mais alta da Cordilheira Apolobamba, na Bolívia, sendo superado, somente pelos nevados Chaupi Orco (6044 m), Cololo (5915 m) e Huelancalloc ou Ulla Qhaya (5836 m). Apesar de sua grandiosidade e beleza, é uma montanha pouco conhecida e visitada. Sua primeira ascensão foi realizada em 1957 pela expedição alemã do Deutscher Alpenverein, através da aresta sudoeste, passando pelo cume do Nevado Nube (5710 m). Foi preciso esperar 35 anos por uma segunda ascensão, empreendida em 1992 por uma expedição britânica/neozelandesa, por uma nova rota pela face oeste e aresta norte. A terceira ascensão, aparentemente, aconteceu somente em 2013, por uma expedição francesa-boliviana.



O Huanacuni é um maciço gigantesco, com diversos cumes e inúmeras possibilidades para abertura de rotas de dificuldade. Um de seus cumes (o segundo mais alto), é chamado de Nevado Nube (5710 m), nome herdado do lago homônimo situado ao sul da montanha, no vale que separa o Huanacuni do Nevado Cololo.



Nesse vale encontram-se 3 grandes lagunas: o lago Nube, o lago Dadacorane e o lago Palloche. Visto desde o extremo leste do lago Palloche, o nevado Nube parece formar uma montanha independente, pois desse ponto não é possível avistar o cume principal do maciço (o Huanacuni), o que talvez explique o fato do nevado Nube tenha ganhado uma denominação própria.

O Nevado Nube possuía, até então, quatro ascensões conhecidas: a primeira realizada em 1957 pela expedição alemã do Deutscher Alpenverein, pela aresta sudoeste, e as demais por três expedições britânicas em 1988, 1989 e 1992, todas repetindo a rota original de 1957.



Em junho e julho de 2021 nós realizamos 2 expedições exploratórias na região do Nevado Huanacuni, com o intuito de investigar as condições de seus glaciares e possibilidades de ascensões. A Cordilheira Apolobamba vem sofrendo um forte retrocesso glaciar e muitas rotas escaladas nas décadas anteriores estão se tornando perigosas ou inviáveis, devido às condições atuais de seus glaciares. Essas expedições também tiveram como objetivo fazer um mapeamento do maciço e esclarecer as lacunas dos poucos relatos disponíveis sobre essa montanha.



O Nevado Huanacuni pode ser dividido em 2 setores: o setor sul, cujo acampamento base corresponde ao vale dos lagos Nube, Dadacorane e Palloche, e o setor norte, alcançado a partir do setor sul cruzando-se um passo de 5270 m ou a partir da vila de Cololo. O setor sul dá acesso ao glaciar onde se encontra a aresta sudoeste, rota seguida pela maioria das expedições conhecidas.



Para o setor norte não encontramos nenhum registro de expedições aos cumes situados ao norte do cume principal. Esse setor é marcado pela imponente face oeste do maciço.



Em agosto retornamos ao Nevado Huanacuni com o objetivo de realizarmos 2 escaladas aos extremos sul e norte do maciço. Montamos nosso acampamento base no lago Nube e, a seguir, um acampamento avançado (C1) a aproximadamente de 5000 m de altitude, próximo à entrada do glaciar sudoeste. Nossa primeira ascensão foi ao extremo sul, pela aresta sudoeste, seguindo a mesma rota das expedições de 1957, 1988, 1989, 1992 e 2013. A aresta sudoeste corresponde ao magnífico arco do Nevado Huanacuni, com sua estética singular e atrativa. No extremo sul do Nevado Huanacuni encontra-se um cume secundário, que chamamos de Extremo Huanacuni Sul (aprox. 5450 m). Devido à beleza dessa rota, esse cume secundário vale, por si só, uma visita à região.



Após esse cume é preciso descer por sua aresta até o imenso glaciar do Nevado Nube e voltar a subir em direção à aresta principal, que liga o Nevado Nube ao Nevado Huanacuni. A partir dos 5500 m havia uma grande acumulação de “nieve polvo”, dificultando nosso avanço. Seguimos pela aresta entre o Nube e o Huanacuni até a parte final, cuja inclinação, supostamente, seria de uns 65 graus até o cume principal, mas que, devido à acumulação de neve, estava com mais de 70 graus. A partir desse ponto foi impossível continuar a ascensão, pois a “nieve polvo” não permitia nenhum tipo de sustentação ou apoio, desmanchando-se em placas e fazendo-nos deslizar novamente para baixo. Alcançamos um ponto a 20 ou 30 metros verticais do cume principal e decidimos regressar, devido ao risco de avalanche.



Seguimos o caminho de volta pela aresta e subimos novamente em direção leste, para alcançarmos o cume do Nevado Nube. O retorno ao acampamento foi pela mesma rota de subida, tendo a escalada um total de 18 horas, ida e volta. Nas condições atuais da montanha, essa rota pode ser graduada como AD/D, estando as principais dificuldades na travessia de algumas gretas, e no grau de exposição da parte final da ascensão.



Nosso segundo objetivo era escalar o extremo norte do Nevado Huanacuni. Nesse ponto localiza-se um cume de, aproximadamente 5400 m de altitude para o qual não encontramos nenhum registro de ascensão prévia e que chamamos de Extremo Huanacuni Norte. Foi preciso desmontar nosso C1, atravessar o passo de 5250 m e descer até o glaciar situado aos pés da face oeste do Huanacuni.



Montamos nosso C2 a 5100 m, na entrada do glaciar. A escalada do Extremo Huanacuni Norte (aprox. 5400 m) é feita subindo-se pela língua glaciária localizada no extremo da face oeste, com uma inclinação moderada no início (entre 35 e 40 graus, em média), atingindo uma inclinação em torno de 50 a 55 graus em sua parte final. Graduamos a rota em PD/PD+.



Retornamos descendo para a vila de Cololo e seguindo até a estrada principal que corta a Cordilheira Apolobamba, onde, diariamente, um ônibus vindo de La Paz segue até Pelechuco. A expedição teve um total de 8 dias de duração.