O Aconcagua (6959 m) é a montanha mais alta da Cordilheira dos Andes e o ponto culminante das Américas. Também faz parte do projeto Seven Summits (Sete Cumes), que consiste na escalada da montanha mais alta de cada um dos continentes. Por sua relevância no contexto do montanhismo mundial, o Aconcagua recebe um grande número de visitantes todos os anos e, com o aumento dos praticantes desse esporte no Brasil, tornou-se um destino cada vez mais procurado por brasileiros.

A crescente procura pelo Aconcagua levou a um aumento da oferta de expedições para o Teto das Américas. A cada ano, surgem novas empresas e guias oferecendo roteiros para lá. Como avaliar essas ofertas e escolher uma expedição? Dentre os vários aspectos que devem ser observados, como preço, serviços incluídos, tamanho do grupo e estratégia de ascensão, vamos tratar de um tópico muitas vezes negligenciado: a experiência e a qualificação dos guias.

O Aconcagua localiza-se em Mendoza, na Argentina, e faz parte de um parque provincial, o equivalente a um parque estadual no Brasil. A visitação ao parque é regulamentada e controlada pelas autoridades provinciais e, dentre as regras para a realização de expedições dentro dos seus limites, estão aquelas relacionadas ao trabalho dos guias. Somente é permitido a entrada de guias devidamente credenciados, que devem, a cada ano, renovar sua identificação de guia, seguindo os trâmites estabelecidos pelo parque.

Infelizmente, estima-se que em torno de 200 guias piratas atuam ilegalmente todas as temporadas no Aconcagua. Essa estimativa foi realizada há uns 10 anos e esse número, talvez, seja ainda maior nos dias atuais. Como a contratação de um guia não é obrigatório, há uma certa dificuldade para a identificação dos grupos que entram no parque com guias não credenciados, facilitando a atuação dos piratas, que se apresentam como um visitante comum.

Quais são os problemas de participar de uma expedição com guias não credenciados?

1. A primeira consideração é de ordem ética, pois os guias piratas estão infringindo regras que outros guias têm a preocupação de seguir. Os guias piratas, por exemplo, não pagam os impostos correspondentes, nem as taxas devidas para a manutenção da credencial. Guias estrangeiros que entram no país com visto de turista também estão infringindo as leis de migração, pois só poderiam exercer funções remuneradas com visto de trabalho ou de residência.

2. Também há o risco de a expedição ser impedida de entrar no parque, caso os guarda-parques percebam a ilegalidade, no momento de se realizar o “check-in” na portaria. Se o grupo for descoberto após o "check-in", já dentro do parque, será aplicada multa, além de sanções legais.

3. Não menos importante, o parque só emite credenciais para profissionais com título ou certificação de guia, uma garantia de que os guias credenciados possuem a qualificação e a experiência necessárias para conduzir seus clientes em ambiente de alta montanha. Com guias piratas, não há nenhuma garantia referente a suas aptidões e conhecimentos.

4. Outra questão a ser considerada, do ponto de vista jurídico, é que um guia não credenciado não exerce oficialmente a função de guia dentro do parque e não tem nenhuma responsabilidade formal por você, do ponto de vista do parque. Os guias credenciados, ao contrário, são formalizados como os responsáveis por tudo o que acontece em uma expedição.

Como saber, então, se os guias de uma expedição são credenciados e estão legalmente aptos a trabalhar nas dependências do parque?

1. A maneira mais óbvia é observar qual documento o guia utiliza para entrar no parque, uma credencial de guia ou um permiso (ingresso de entrada no parque). Os guias credenciados não precisam comprar/emitir um permiso, como os demais membros da expedição, pois entram no parque com sua credencial. Se o guia está entrando com um permiso, é poque não está credenciado.

Porém, nesse caso, você só saberia se o seu guia é credenciado ou não no momento de realização da expedição.


Como descobrir isso antes?

2. Uma forma simples é analisar o currículo do guia, para saber se ele possui algum título ou certificação de guia de trekking, guia de montanha ou guia de alta montanha. Aliás, a análise de currículo é essencial na contratação de uma expedição de alta montanha, independentemente das questões legais e formais envolvidas, pois há no mercado guias com pouca experiência, oferecendo roteiros para ambientes perigosos, como é o caso do Aconcagua.

O Parque Provincial Aconcagua somente emite credenciais para guias argentinos formados pela AAGM ou EPGAMT e, no caso de guias estrangeiros, certificados pela UIAGM. Se o guia não é um profissional com título reconhecido pelo parque (UIAGM, AAGM ou EPGAMT), certamente não possui a credencial. Para guiar até o cume, o parque exige título de guia de montanha/alta montanha. Os títulos de guia de trekking permitem, somente, liderar roteiros de trekking até Confluencia e Plaza de Mulas ou atuar como guia assistente, subordinado a um guia de montanha/alta montanha, em expedições de cume.

3. Também é possível conseguir essa informação com antecedência, consultando as informações disponibilizadas pelo parque.
No site do parque encontra-se a relação dos guias oficiais credenciados, nos seguintes links:

- Guias de trekking:
www.mendoza.gov.ar/aconcagua/guias-de-trekking

- Guias de montanha/alta montanha:
www.mendoza.gov.ar/aconcagua/guias-de-montana/
www.mendoza.gov.ar/aconcagua/gam

4. Também é possível entrar em contato diretamente com o parque, para consultas referentes aos guias credenciados, através do seguinte formulário:

ticketsform.mendoza.gov.ar/ticketsform/com.tickets.responderformulariointerno

5. Por fim, há uma forma de consultar a lista dos guias credenciados e habilitados para a temporada, através do cadastramento das informações para emissão do permiso no sistema do parque. Para tal, é preciso aguardar o início do processo de emissão de permisos, que em 2023 deve acontecer até o final do mês de outubro, pouco antes do início da temporada. Após a liberação da emissão de permisos, basta entrar no sistema do parque através do link que será disponibilizado na seguinte página:

www.mendoza.gov.ar/aconcagua

No momento de cadastramento das informações do permiso, o formulário disponibilizado pelo sistema conterá, dentre outros, um campo fechado (que não permite a edição das informações) denominado “Guia”. Nesse campo estará uma lista pré-definida com todos os guias credenciados no Parque Provincial Aconcagua, para você indicar o nome do guia que te acompanhará. Se o nome de seu guia não aparecer nessa lista, é porque ele não está oficialmente credenciado pelo parque.

Nesse mesmo formulário você notará que há outro campo aberto chamado “Tour Leader”. Diferentemente do campo “Guia”, que é uma lista fechada, esse é um campo de livre preenchimento, no qual se pode incluir qualquer nome. Esse é o artifício utilizado pelos guias não credenciados, colocando seu nome como Tour Leader no permiso dos clientes e escondendo o fato de que não possuem a credencial do parque, pois traz a impressão, para quem não sabe o que é um Tour Leader, de que ele é o guia oficial do grupo. Como os clientes, geralmente, não preenchem os dados do permiso, sendo isso feito pelas agências ou pelo próprio guia, isso não fica evidente.

Mas o que é o Tour Leader? O Tour Leader é o representante do grupo, aquele que responde pelo grupo como um todo, quando há algum assunto para ser tratado com as autoridades do parque ou com os profissionais que atuam na montanha. Mas o Tour Leader não pode atuar como o guia do grupo e é expressamente proibido pelo parque que o Tour Leader exerça as funções de guia, sem estar devidamente credenciado como tal.

Fiquem atentos!!!

Anexo: Orientações do Parque Provincial Aconcagua para credenciamento de guias