Texto por: Marcelo Delvaux


A Cordilheira de Huanzo pode ser enquadrada na categoria das cordilheiras esquecidas dos Andes. Esquecida e pouco visitada: até a data de nossas ascensões se conheciam, somente, duas expedições que escalaram na região, uma em 1970 e outra em 2015. Em 1970 John Ricker e Sue Tatum realizaram uma longa travessia entre Santo Tomás e Antabamba, subindo no caminho os nevados Jatun Huaychahui (5452 m) e Chancoaña (5494 m), esse último a montanha mais alta da Huanzo (ver AAJ 1971). Foi preciso esperar até 2015 para que outra expedição, liderada pelo britânico John Biggar, realizasse a segunda ascensão ao Chancoaña (5494 m), que Biggar chamou de Toro Rumi, pela mesma rota de John Ricker (face/aresta norte). A equipe de Biggar também fez a primeira ascensão do Condorillo (5213 m) e do Huaytane (5443 m).



Os limites da Cordilheira de Huanzo são imprecisos, mas correspondem a uma zona mais ampla do que aquela representada no mapa que aparece no guia de John Biggar (The Andes: a guide for climbers). A Huanzo se estende pelo imenso planalto vulcânico localizado ao norte do Nevado Coropuna, tendo a sudoeste o Cañon de Cotahuasi e a leste e sudeste a Cordilheira de Chila como referências naturais para a delimitação de sua área. Ao norte, outros vales profundos a separam da região onde se encontram a as cidades de Antabamba e Santo Tomás.

No final de maio de 2022, eu e a Julieta Ferreri decidimos realizar uma expedição exploratória na Cordilheira de Huanzo, com o objetivo de mapear o seu setor nordeste, onde se encontram seus maiores glaciares. Existem 3 formas de se chegar à Cordilheiira de Huanzo, todas três bastante complexas devido ao isolamento da região e carência de transporte público: pela província de Apurímac, a partir de Abancay e Antabamba até a laguna Huacullo; a partir de Cusco e Santo Tomás, chegando-se no lado nordeste da cordilheira; ou de Arequipa até Cotahuasi, subindo-se o cânion homônimo para se chegar à Huanzo pelo sul.

Optamos pelo caminho através do Cañon de Cotahuasi por ser a opção mais interessante e bonita. Foram 5 dias somente para se chegar até a Laguna de Huanzo, ponto de partida de nosso roteiro. Depois, 8 dias de atividades (3 montanhas escaladas, 2 “pasos" de 5200 m superados e uns 50 km de trekking), e mais 3 dias de retorno via Santo Tomás e daí a Arequipa. O roteiro que percorremos foi o seguinte: Laguna de Huanzo, Quebrada Huanzo, “paso” a 5221 m entre os cerros Huaytane y Calasaya, ao qual chamamos Paso Huaytane, Quebrada Huacullo, “paso” a 5197 m ao norte do Cerro Chancoaña, que denominamos Paso Chancoaña, Quebrada Tirane até as vilas de Quiriquiri e Paterio.



Em Cotahuasi (2683 m) não conseguimos nenhuma informação sobre como chegar à Cordilheira de Huanzo, ninguém sequer conhecia a Laguna Huacullo, por onde pensávamos iniciar nossa expedição. Optamos por subir o Cañon de Cotahuasi de ônibus até Alca (2750 m), onde tomamos outro ônibus até de Puyca (3562 m), uma pequena vila encravada na borda do cânion, na esperança de conseguirmos algum transporte desde esse local até Huanzo. Se iríamos chegar ao nosso destino por esse caminho era uma incógnita, mas a incrível paisagem do Cañon de Cotahuasi, com seus abismos profundos e imensas cachoeiras deslizando por seus paredões, compensava a viagem até aqui.



Em Puyca fomos informados que, diariamente, um ônibus sai às 04:00 de Alca com destino a Chincayllapa, inóspito lugarejo localizado na parte alta do Cañon de Cotahuasi. O problema seria o trecho de Chincayllapa a Huarcaya, conforme nos disseram, onde raramente passam veículos devido ao péssimo estado do caminho. Se conseguíssemos chegar a Huarcaya então seria possível alcançar a Laguna de Huanzo, pegando carona com algum caminhão que, eventualmente, passa por Huarcaya na rota que leva até Caylloma ou Espinar. Decidimos arriscar a ida até Chincayllapa e passamos duas noites em Puyca, aproveitando para conhecermos as ruínas de Maukallacta (3925 m), uma antiga cidade inca situada no topo da montanha vizinha.



Saímos de Puyca pouco antes do amanhecer, caminhando até a bifurcação da estradinha que sobe pelo Cañon de Cotahuasi, onde, em um horário indeterminado, a partir da 06:30, supostamente passaria nosso ônibus. Pouco depois das 07:30 subimos em um antigo ônibus, bastante resistente e adaptado para o caminho acidentado cânion acima. A estradinha foi tornando-se cada vez mais vertiginosa, margeando despenhadeiros que pareciam não ter fundo. Impressionante como essa região é totalmente desconhecida pelos turistas, que lotam todos os anos as vilas do famoso Cañon del Colca, mas ignoram a existência dos cânions da zona de Cotahuasi.



Chegamos em Chincayllapa (3950 m) por volta das 10:00 e constatamos que, realmente, seria difícil seguir adiante, pois não havia nenhum tipo de transporte disponível nessa vila. Depois de 2 dias de espera, pudemos fazer contato com um missionário que vivia na vizinha Churca (3850 m), que nos levou de 4x4 até Huarcaya, um remoto e frio povoado localizado a incríveis 4525 m, já fora Cañon del Colca. Após muitas horas de espera, finalmente avistamos um caminhão carregado de alpacas que seguiria para Espinar, passando por Culipampa (4750 m), às margens da Laguna de Huanzo. Viajamos junto com as alpacas, apreciando a paisagem inusitada dessa região árida, formada por rochas multicolores de estranhas formações, esculpidas pelos fortes ventos. Aos poucos, no horizonte, surgiram algumas montanhas nevadas: era a tão esperada Cordilheira de Huanzo. Chegamos na laguna no final da tarde, onde armamos nossa barraca para nossa primeira noite nessa nova cordilheira.



Nosso plano original era começar a expedição na Laguna Huacullo, situada mais ao norte, explorando, inicialmente, o maciço dos nevados Chancoaña e Huaña e, por último, a região do Huaytane, completando a travessia na Laguna de Huanzo, onde nos encontrávamos agora, voltando à Cotahuasi desde aqui. Devido às limitações de transporte nessa zona, invertemos o itinerário planejado, seguindo primeiro para o Huaytane, com a ideia de encontrar, no final da expedição, uma rota que nos deixasse do outro lado da cordilheira, na vertente de Santo Tomás, aonde talvez fosse mais fácil encontrar algum veículo que nos levasse até a cidade.



No primeiro dia de caminhada subimos a Quebrada Huanzo e entramos por um vale secundário, que leva diretamente ao lado sul do Cerro Huaytane, em cuja base acampamos. Nesse dia, fui até a entrada do glaciar, para averiguar as condições da parede e buscar uma entrada segura. O glaciar encontra-se em fase adiantada de regressão, com uma barreira de rochas expostas em sua parte mais baixa. Encontrei uma passagem entre as rochas, uma espécie de funil onde, por sorte, não havia risco de queda de rochas e permitia subir até a parede.



No dia seguinte entramos na parede do Huaytane pela passagem que eu havia descoberto e subimos pela face sudoeste, predominantemente rochosa em sua parte mais baixa, com pequenos lances de escalada, até chegarmos ao glaciar, por onde avançamos até a aresta noroeste, que leva diretamente ao cume. O Huaytane foi escalado pela primeira vez por John Biggar em 2015, pela aresta norte. Nós abrimos uma nova rota pela face sudoeste e aresta noroeste. Essa montanha aparece no guia de Biggar com uma altitude de 5430 m, sendo que nosso GPS marcou 5443 m.




No terceiro dia a Julieta decidiu descansar e eu fui explorar uma montanha que aparece no mapa IGN com o nome de Cerro Huanzillo e que os moradores da região chamam de Nevado de Huanzo. Subi por uma trilha bastante íngreme que me deixou no colo entre o Huaytane e o Huanzillo, um “paso” de 5214 m de altitude que eu denominei de Paso Huanzo, uma possível alternativa para alcançar o setor norte da cordilheira. Desde o colo segui pela aresta em direção ao cume do Nevado de Huanzo, uma linda rota que alterna trechos de neve e rocha, com alguns cumes secundários no caminho.



Não encontrei nenhuma marcação, pircas (pilhas de pedras) ou vestígios de ascensões anteriores nessa rota (aresta noroeste), nem no cume, como é comum existir em montanhas previamente escaladas. Provavelmente, se trata de uma primeira ascensão. Possui 5424 m, conforme o GPS. O Nevado de Huanzo não é mencionado no guia de Biggar e é a 5ª montanha mais alta da Cordilheira de Huanzo, conforme o levantamento cartográfico que realizamos para essa região. Decidimos preservar o nome da montanha, como é conhecida localmente, e atribuir o nome de Cerro Huanzillo da carta IGN ao cume secundário localizado a NO, que possui uma altitude levemente inferior.



No quarto dia, decidimos não seguir para o norte através do Paso Huanzo, pela dificuldade de subi-lo com o peso das mochilas, mas utilizar outro “paso" que havíamos visto quando subimos o Huaytane e que, certamente, nos levaria até a Quebrada Huacullo. Desarmamos o acampamento e seguimos em direção ao colo que separa os cerros Huaytane e Calasaya. A decisão mostrou-se acertada, pois o Paso Huaytane (5221 m), como o denominamos, encontrava-se mais perto de nosso acampamento e sua subida era menos sofrida com todo o peso que carregávamos. Após descermos o “paso" alcançamos um vale secundários, que nos levou até a Quebrada Huacullo, onde acampamos.



No quinto dia caminhamos até o final da Quebrada Huacullo, formada pelo circo glaciar dos nevados Huayunca e Huaña. Após montarmos nossa barraca, fui investigar um caminho que, supostamente, conduziria a mais um “paso", entre os nevados Huaña e Chancoaña. Consegui chegar ao “paso", a 5197 m, que chamei de Paso Chancoaña. Essa era a parte mais bonita de todo o roteiro que seguimos na Cordilheira de Huanzo. A trilha passa por cachoeiras, com uma vista dos cumes nevados ao longo da Quebrada Huacullo, chegando até a base do Chancoaña, a montanha mais alta da Cordilheira de Huanzo com seu formato exótico, um cone nevado com algumas torres de pedra no topo.



Regressei à barraca e, no dia seguinte, desarmamos o acampamento e subimos em direção ao Paso Chancoaña, montando novamente nossa barraca na entrada do glaciar de uma montanha desconhecida, ao sul do Nevado Huaña, cuja escalada colocamos como o objetivo do próximo dia. Essa montanha possui dois cumes (5372 m e 5387 m, conforme nosso GPS) e encontramos pircas (pilhas de pedras) em ambos os cumes.





No oitavo dia descemos o vale, passando ao lado do glaciar do Nevado Huaña e chegando a umas ruínas de pedra em um local chamado Quirquiri, onde encontramos a caminhonete de uma empresa que realizava um trabalho de captação de água nessa zona. Fomos informados pelos funcionários que, no dia seguinte, eles iriam para Santo Tomás e poderíamos seguir com eles. Nesse dia nos levaram a um pequeno lugarejo chamado Paterio, onde dormimos em uma escola. De Santo Tomás, conseguimos transporte até Arequipa, desde onde tivemos que tomar mais um ônibus para regressar a Cotahuasi.


Leave a Reply

Your email address will not be published.

Comment

Name

Email

Url