11/07/2022: Laguna Yanacocha - Mallma

No último dia de caminhada a trilha passa por uma sequência de lagoas glaciares, Uchuypuca, Yanacocha, Mullucocha, Pucacocha, chegando até a imensa Laguna Singrenacocha, com uma vista para as montanhas mais setentrionais da Cordilheira Vilcanota, como o Huayna Ausangate (5720 m) e, mais ao norte, para o Nudo de Ayacachi. É preciso sair da trilha principal e descer até a Laguna Singrenacocha, seguindo por sua margem ocidental até alcançar, no final da lagoa, uma trilha que baixa pela quebrada do rio Singrena, levando diretamente à vila de Mallma.



Cheguei a Mallma (4150 m) por volta das 19:00, percorrendo nesse dia em torno de 30 km. Em meio à quase ausência de luz nessa vila, vi uma construção estranha e iluminada. Ao me aproximar, descobri que era um restaurante, uma “truchería”, e, milagrosamente, ainda aberta. Entrei e fui informado que o último ônibus para Cusco já havia passado há cerca de uma hora. Pelo menos havia comida. A truta já tinha acabado, mas havia “chicharrón de pollo”, um dos meus pratos preferidos. Jamais imaginaria que iria encontrar algo assim, no final da caminhada. E ninguém consegue imaginar o prazer que é saborear uma refeição após 9 dias de uma dura expedição como essa.



Eu havia achado surreal essa refeição inesperada, mas mal sabia que era apenas o começo de uma espécie de trama surrealista, que parecia fruto da imaginação de algum escritor delirante. Como o próximo ônibus para Cusco, vindo de Puerto Maldonado, na região amazônica, só passaria às 02:00 da madrugada, decidi dormir em um hotel e ir a Cusco somente no dia seguinte. E como em Mallma não há hotel, resolvi caminhar até a vila seguinte, Mahuayani (4090 m), onde já me havia hospedado em outra ocasião e que fica a uns 6 km de distância.

Caminhei até Mahuayani pela estrada, a Carretera Interoceanica, que liga a Amazônia ao oceano Pacífico. Ao me aproximar de Mahuayani, percebi que havia música na cidade e, chegando na praça principal, onde estava o hotel, descobri que estava acontecendo uma festa. Em um palco armado na praça, um grupo tocava huaino peruano no último volume. Para quem havia passado 8 noites no mais completo silêncio, seria um tormento dormir com esse barulho, mas não havia escolha.

Toquei a campainha do hotel, mas ninguém abriu a porta. Gente havia, porque se via a luz da televisão ligada no saguão. Toquei novamente e escutei o barulho da campainha, estava funcionando. Por que ninguém atendia? A resposta veio em breve. Enquanto pensava o que fazer, um sujeito visivelmente “borracho” se aproximou, me cumprimentou e começou a esmurrar a porta. Como não apareceu ninguém, desistiu e se foi. Após uns 10 minutos, surgiu outro “borracho” e fez o mesmo. Agora entendi porque ninguém no hotel atendia a campainha, certamente pensavam que era alguém que estava na festa e que estava buscando um lugar para dormir, para curar a “borrachera”.

A única solução era ficar por ali até que passasse o próximo ônibus. Olhei para o relógio e eram 22:00, teria que esperar, no mínimo, 4 horas no frio, cansado e escutando huaino. Mas, então, me lembrei que todos os dias, entre 19:00 e 20:00, saem de Cusco diversos ônibus com destino a Puerto Maldonado, na Amazônia. Por que não ir para a Amazônia, ao invés de voltar a Cusco? Em 1 hora esses ônibus devem começar a passar por aqui... Dito e feito, por volta das 23:00 passou o primeiro ônibus para Puerto Maldonado, fiz sinal, mas não parou, provavelmente estava lotado. Passaram mais 2 ou 3 ônibus, que também não pararam. Já havia me dado por vencido até que, finalmente, um ônibus atendeu ao meu sinal e aceitou me levar.

Como Puerto Maldonado é muito longe, comprei passagem até Mazuko, cidade amazônica a umas 4 horas de distância, onde sabia que poderia encontrar um hotel para descansar. O ônibus seguiu pela Carretera Interoceanica, subindo até o Abra Pirhuayani (4725 m), um “paso” no extremo da Cordilheira Vilcanota onde a estrada cruza as montanhas, para descer em direção à vizinha Amazônia. Consegui ficar acordado até o “paso”, o clima havia melhorado e a noite estava clara, permitindo observar a silhueta branca do imenso maciço do Colque Cruz. Logo depois adormeci e acordei já próximo de Mazuko, com o barulho de uma chuva torrencial, sinalizando que já estávamos em terras amazônicas. Por volta das 04:00 da madrugada já me encontrava hospedado no Hotel La Selva, tomando um banho gelado em pleno calor amazônico. Um desfecho realmente surreal, depois de 9 dias vivenciando a intensa realidade das montanhas da Vilcanota!